terça-feira, 20 de abril de 2010

S.O.S. REBOLATION

......Em Call Center, ou em qualquer outra empresa de segmentos diversos, quando você se destaca por algum motivo profissional a ponto de tal fato se tornar amplamente divulgado entre seus colegas de trabalho, você se torna um alvo. Não só isso, você passa a ser referência de comentários de todos os tipos, elogios, falsos elogios, expectativas, olhares de saudação, de malícia e desconfiança. A pressão sobre você, sobre seus passos futuros, é algo tipo paparazzi. No fundo, no fundo, as pessoas querem provar que você teve apenas sorte. Querem provar que podem fazer melhor que você. E muitas vezes se utilizam da política de boa vizinhança com o objetivo de conhecer melhor o teu jogo sem demonstrar seu verdadeiro intento: te aporrinhar levemente até você se sentir mal.
......Eu não sabia que bater o recorde de vendas de cartão me causaria tão mal. No dia seguinte, os olhares sobre mim se comparavam a holofotes porque todos queriam saber se o meu desempenho seria semelhante. E não foi. Nesse negócio de vendas de cartão por telefone, tem dias que você vende bem, tem dias que você não vende nem um; e isso é plenamente natural. Eu não vendi nada nos dois dias posteriores. E as pessoas faziam de tudo pra jogar isso na minha cara, talvez até inconscientemente, com perguntas, comentários e brincadeirinhas irônicas. Eu me senti mal porque me foi depositado todo um peso de expectativas que ser humano algum podia suportar por muito tempo. E me senti inútil, perdendo meu brilho, tendo que refletir projetos de vida e questionar meu talento profissional. Eu fui incentivada a perder o entusiasmo no exercício cotidiano em função de atingir metas alheias. Eu estava sendo pressionada por todos os lados e até por mim mesma.
......Até que...bem... ouvi o Reboletion! Muitas músicas causam sucesso apenas pelo seu refrão. E o Rebolation do Parangolé é uma espécie de música-refrão que fez, e ainda faz, muita gente delirar. Metaforicamente, no meu entender, Rebolation é um estado de espírito, uma motivação cósmica, um elemento centralizador de vida. É sério. Você não precisa de um significado concreto pra entender que o Rebolation é bom. Você apenas se leva pelo ritmo. Para perceber melhor o que quero dizer ao trazer o Rebolation nessa pauta, tem um conto muito bom da Clarice Lispector chamado Amor, em que uma dona de casa tem um momento de epfania, mudando radicalmente a sua forma de se ver e conceber o mundo, apenas por ter observado um mendigo mastigando chiclete na praça. Eu tive meu momento epfânico, uma revelação transcendental, por assim dizer, ao escutar o Rebolation quando eu estava muito muito triste. Não que a música tenha um certo poder sobre o individuo, mas, sim, que, em certos momentos, nossas emoções estão bastante reviradas e sem orientação que somos propensos a aceitar qualquer estímulo, por menor que seja, em prol da superação de algo que não está nada bem.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Reclamar, Reclamar


......Em tempos de chuva grossa reclamar da vida, do trabalho, do namorado é um tanto egoísta ante às tragédias climáticas nas quais vivenciamos. Mas, se me permite dizer uma coisa, reclamar de tudo, seja em qualquer circunstância, faz parte da sobrevivência humana, independente de chuvas, deslizamentos, maremotos, piranhas assassinas... Precisamos falar, dizer o que nos incomoda. É uma forma de se libertar, se purificar das humilhações diárias, expurgar a intolerância alheia, inscrever nos objetos, no ar, nas coisas, nas raízes de nossa insatisfação. E isso tudo tem a ver com não morrer.
......Eu sou uma lady, não sou do tipo que qualquer coisinha mando a sujeita tomar no cú. Meu instinto de vingança verbal é bem mais acurado que isso; me dá uma caneta e um papel e te mostro minha raiva; me da um computador veloz e a vida fica bem melhor. Eu já disse: o que move o mundo são as frustrações. Num belo dia, a garota Marina finalmente dorme oito horas, acorda achando que o mundo é dela, vai ao trabalho, bate o recorde de vendas de cartão, e para que? Para que olhos gordos e invejosos se juntem num complor, produzindo comentários estúpidos e sem fundamentos sobre os métodos profissionais da garota Marina.

sábado, 10 de abril de 2010

Da representação à autoapresentação


......Quer ver? Busque no google imagem o tema operador de telemarketing e terás dezenas de garotas lindas, ultra sorridentes, comportadas e com ares de felicidade. Há representação mais 0800 que essa? No mínimo quem inventou essa imagem achou que existia um Call Center de boas notícias, do tipo: “Srº Jorge, meu nome é Marina e o Srº ganhou na loteria”. Eu pesquisei, não há Call Center de boas notícias, se tivesse, eu teria sido a primeira a trabalhar num lugar desses, receber elogios, agradecimentos, felicitações é tudo que um operador deseja. Seriamente, uma representação aproximada combina com minha autoapresentação: acordar às 5 da manhã, ir para a faculdade, ir para a central, chegar em casa às 11 da noite e ficar até às 2 da madruga lendo textos para uma prova, nem precisa dizer do cansaço, das olheiras, da cara de sono, da cara de fome, da cara de quem comeu e não gostou, da cara de quero ir pra casa. Isso é a verdadeira classe operária, minha gente, nada dessas besteiras que vemos nas fotos.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Cinderella Malhada


......Eu quero falar uma coisa sobre o Fiuk da Malhação, pode ser?
......Eu não o acho bom ator, muito menos bom cantor, além de considerar grande exagero a euforia em torno desse rapaizinho, capiche!?. E penso que até ele concordaria comigo e assinaria em baixo me colocando num pedestal, já que das vezes que o vi em programas de auditório, ele estava com aquela cara de o-que-fiz-pra-merecer-tudo-isso? Verdade!, aquela carinha dele tipo me-colocaram-aqui-de-repente-e-eu-nao-sabia. Parece de família, a Cleo Pirez no começo da carreira também tinha essa cara de ops-acho-que-se-enganaram-mas-não-conte-a-ninguém. Bem, como ator e cantor, talento, talento, o Fiuk ainda não tem, mas em compensação seu nível de Sex appeal é estratosférico, benzadeus. Mas quer saber, pra mim não interessa muito essa coisa de Sex appeal ou capital erótico, até porque, o que adianta achá-lo bonito, maravilhoso, encantador, sorriso lindo, lindo, se ele vive na Globo e eu num Call Center?. Quer distância maior que isso? Quer tortura maior que essa? Quer desespero mais caudoloso para uma garota com sonhos utópicos? Ficar grudada na T.V, esperar que ele apareça nos poucos minutos de Malhação, só para suspirar apaixonada, não dá, não dá mesmo, é autoflagelação involuntária.
......Essa minha vida de Cinderella pós-moderna me mata. E a bruxa madrasta, que é o meu supervisor, me obriga a trabalhar seis horas por dia, sem possibilidade de atrasar minhas pausas. Decretei, portanto, o dia e o momento em que rodarei a baiana naquela central, descendo do salto do profissionalismo e cometendo meu ato mais climático para uma justa causa: o momento em que tiver que vender cartão para o Fiuk e quando ele disser alô, pedi-lo em casamento, e se disser não, ameaço apagar todos seus dados cadastrais, prejudicando toda a sua vidinha de playboy-bebendo-no-sucesso-dos-pais.

domingo, 4 de abril de 2010

Demolição e o caso das Formigas

......Juro, se isso não for um trote, me rendo à mentalidade Europeia. Para quem não pretende assistir ao vídeo acima, trata-se de uma garotinha de 9 anos que, revoltada por seus professores passarem tarefas extras para o fim de semana, resolve ligar para a central de atendimento de uma demolidora e solicitar a demolição de sua escola. Detalhe: a demoilição deve ser feita com os professores dentro. Ora, com 9 anos meu projeto de vida era ganhar a casa completa da Barbie, viver na casa da Barbie e fazer comidinhas e chá para o ken; já essa garota consegue ser mais perspicaz que aqueles jovens do massacre em Columbine. A única coisa agressiva que fiz na infância foi incendiar o mercado das formigas; lembra dessa brincadeira? Escolhiamos um espaço no chão, montávamos uma miniestrutura retangular e enchiamos o recinto de alimentos doces. Quando o local se transformava num tapete espesso de formigas, tacávamos fogo e morriam todas. Mas era só isso, nada que envolvesse o sangue de professores, babás e padrastos.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Super e o Erótico


......Meu atual supervisor é algo a quem eu poderia rotular de filhote estrupiado do poderoso chefão: um cara sério demais, chato em demasia, implicante, desconfiado e arrogante em seus feedbacks. Trabalhou como operador durante sete meses até ser promovido a Super. Eu penso que, você não precisa ser dotado de uma inteligência fantástica, um conhecimento acurado de cultura ou ter uma larga experiência profissional para se ter sucesso; tendo uma ótima dicção, você engana qualquer avaliador de RH. E ele tem uma dicção fantástica, uma voz bonita, voz de cantor de pagode, sabe. Uma voz limpa e imperativa. Mas é só voz.
......Quando aparecem gerentes no local ou qualquer outro acima da hierarquia a que pertence, logo logo se exibe com suas perguntas e comentários pseudo-inteligentes, e os carinhas compram fácil. Parece que o sucesso dele está centrado naquilo que recentemente foi chamado de Capital erótico. É assim, há três categorias de habilidades pessoais de um individuo bem na fita: o capital econômico, social e cultural. O capital erótico passa a ser a quarta categoria e diz respeito a uma série de qualidades que tornam a pessoa encantadora, atraente e sociável. Não está só na aparência, mas também na habilidade em parecer um indivíduo agradável de se conviver. Na minha adolescência, eu tinha um elevado capital erótico. Tinha mesmo. As pessoas me adoravam, eu era muito popular na escola, ganhava presentes fora do aniversário e quase nunca estava solteira. O fato é que, chegar aos 20 anos foi uma espécie de desvio de conduta em prol da falsa-maturidade-apegada-a-uma-moral-arcaizante, baby. E eu nem sei como aconteceu. Lembro-me das farras depois da aula, o shopping com as amigas , os enlaces amorosos. E, de repente, tudo isso se reduziu à vaga rotina de Faculdade-Trabalho-Cama.