quarta-feira, 31 de março de 2010

Dedicado ao Srº P. Alves



......Sou baiana, sim. Tenho sotaque baiano, sim. E se isso te irrita, Srº P., me irrita muito mais falar com o Srº, um sujeito com cérebro de ervilha e um preconceito do tamanho da lua.
......Srº P. faz parte de um inapto grupo de clientes - em geral de SP, RJ ou RS - que se recusam a ser atendidos por nordestinos, pois os julga incapazes, burros e preguiçosos. É dele a frase: “da Bahia só me interessa as mulheres e o carnaval”. Ái, que vontade de mandá-lo tomar no olho de suas reentrâncias. Pois bem, isso tudo é para o Srº P. Alves, a quem eu tive que ser rigorosamente educada e profissional, mesmo ele sendo estúpido, grosseiro, asqueroso e no interior de minha alma se avolumar uma força cravada de ódio com potência enérgica de uma bomba atômica.
......Logo de início, disse-me que se assustou ao ver no visor do celular o DDD 71. Qual o problema de receber ligação da Bahia, Srº P.,? Por acaso está com rabo preso de alguma safadeza que fizeste em pleno carnaval? Talvez um nino fora do casamento? Olha, eu poderia estar roubando, matando, me prostituindo ou em casa assistindo Sessão da Tarde, mas estou vendendo cartões; me respeite, viu. Coisa chata essa birra com nordestino. Já basta as novelas nos representarem de maneira estereotipada, agora vem o Srº P, me agredir com toda a sua boçalidade de homem nascido na metrópole. Que metrópole? Coisa mais retrô, norte-americana.
......No Call Center em que trabalho tem uma bonita e ampla sala de massagem. Coisa Chic, não?! Pois bem, eu achava Chic, até descobrir que as sessões de massagem são destinadas apenas a coordenadores, gestores e o povinho lá do administrativo. Na minha grata inteligência, se a massagem serve para atenuar o estresse, por que não disponibilizá-la para quem de fato convive com o estresse diariamente? Eu tive uma idéia e vou passá-la para o meu Supervisor: que tal inaugurar uma sala de boxe, daquelas que tem um saco de pancada? Dessa forma, qualquer operador que tivesse contato com clientes do tipo Srº P., poderia se dirigir até o recinto e esmurrar o saco imaginando que fosse o dito cujo. E há comprovações científicas que tal atividade alivia o estresse e a tensão. Lembro-me de ter assistido num programa jornalístico que essa foi a solução encontrada por uma dona de casa brasileira para solucionar o problema das constantes brigas que tinha com o marido. Em entrevista, ela dizia que depois de instalado o saco de pancadas em casa, as brigas diminuíram e ela não precisou mais descarregar a sua raiva em pratos e copos, economizando bastante com isso.

domingo, 28 de março de 2010

Marina Callcenter, em que posso ajudar?


......Houve um tempo em que ser operadora de telemarketing era um luxo: trabalhar numa grande empresa, confortavelmente no ar condicionado, ter seu próprio computador, comunicar-se com pessoas de todos os lugares, carga horária menor, inúmeros benefícios, sem esforço físico, sem levar tarefas para casa e ganhar razoavelmente bem. Hoje, o teleatendimento generalizou-se e qualquer um pode ser teleoperador. O prestígio se foi, o salário diminuiu, as cobranças em cima de metas aumentaram, o índice de clientes insatisfeitos aumentou também, o estresse, o cansaço, o desejo de pedir demissão, o desejo de querer ser demitido, o estresse novamente, os xingamentos e vulgaridades escultados todos os dias, enfim. Quem já foi ou é operador de telemarketing conhece todas as crecas profissionais de que tento enumerar. Se você é a sortuda ou o sortudo trabalhando em qualquer outra empresa que não seja de telefonia, bancos, cartão de credito, cobranças e afins, deve achar exagero o que eu digo; mas em geral é tudo a mesma mer&@. Operador de telemarketing deixou de ser uma carreira há muito tempo, tornando-se mais uma espécie de solução desesperada para a falta de grana, baby.
......Bem, decidi abrir esse blog porque acredito piamente que, se é para trabalhar numa área como essa, melhor que se tire algum proveito disso, ou todo o seu longo tempo de head set na cabeça terá sido em vão. O proveito de que falo é que sempre gostei de ler e escrever. Meu sonho é ser uma grande escritora. E já que não possuo o talento nato dos meus autores favoritos, além de não ter incentivo algum para publicar contos e poemas que, vez em quando ouso produzir, decidi escrever sobre aquilo que mais sei, explorando minha experiência de três anos de call center ( ativo e receptivo), da maneira mais severa e realista que existe.
......Esse blog servirá também como uma válvula de escape, um desejo irreprimido de falar, de gritar contra todos os clientes mal educados, porque já estou cansada de levar humilhação para casa.